Por que ainda fazer podcast no Brasil?

Em 2015 o meu podcast ainda estava bem no começo e um post do Thiago Miro no Mundo Podcast ajudou muito na chegada de muitos novos ouvintes. O post “12 novos podcasts que valem a pena ouvir” permitiu que o Ficções saísse do anonimato quase total (eu mesmo não conhecia ninguém que ouvia o meu podcast até alguém comentar no site dizendo que veio por indicação desse texto) e me deu forças pra continuar produzindo podcast até hoje. Por esses dias tive a curiosidade de voltar até aquela lista para saber o que aconteceu com os outros podcasts indicados.

Logo de cara, fiquei feliz por perceber que dos 12 apenas 3 estão inativos (Pedabobos, PH Santos Show e Motim) — e por inativos quero dizer que não tiveram nenhum episódio em 2017. Por outro lado, fiquei pensando sobre o que mudou para todos esses podcasts. O que foi possível alcançar de lá pra cá? A resposta: quase nada. Tirando um possível aumento e diversificação do público, todos esses podcasts ainda são produções apaixonadas e independentes, sem praticamente nenhum avanço em termos de profissionalização. Então, se dois anos não trazem nenhuma mudança substancial para podcasts promissores, por que ainda fazer podcast no Brasil?

Um caso simbólico

Em 2017, o Diário de um Elefante, um dos meus podcasts favoritos acabou — pelo menos no formato original. Vladimir Campos, o criador do podcast que dava dicas sobre Evernote e propunha reflexões sobre tecnologia, resolveu transformar o podcast em algo exclusivo para apoiadores do Patreon e migrou o conteúdo gratuito que ele produz para o Youtube. É um movimento natural e justo. Pense bem: quanta dedicação, tempo e conhecimento são empregados na produção de um conteúdo gratuito para o público sem trazer retorno quase algum para o produtor? E só não digo nenhum retorno porque sei que todos que compartilham algum tipo de conhecimento na internet percebem como é gratificante o contato com as pessoas que chegam até você contando suas histórias, relatando como aquilo que você disse ou ensinou mudou a vida delas.

Mas não podemos, obviamente, viver apenas das experiências e da gratidão das pessoas. E é justamente nesse sentido que acho a decisão do Vladimir necessária para manter a produção dele sustentável. Com apoiadores no Patreon ele consegue manter parte da infraestrutura que precisa para produzir o podcast e os vídeos que faz para o Youtube — sendo que estes podem gerar ainda alguma receita. No Brasil, tirando alguns poucos podcasts que conseguem anunciantes e outros com um fandom grande o suficiente para agregar muitos colaboradores que ajudem a sustentar o podcast e garantir alguma renda para os produtores, a maioria dos podcasts são inviáveis em termos financeiros. Nos EUA muitos podcasts se mantém com anúncios e doações, e assim podem continuar entregando seus episódios de forma gratuita na internet. Aqui, infelizmente, isso ainda parece improvável.

Como vejo o podcast na minha vida

Eu faço podcast como uma extensão do meu trabalho. Sou professor em uma instituição pública e encaro a mídia podcast de duas formas: como uma forma de divulgação do meu trabalho acadêmico e como uma possibilidade de troca de conhecimento com outras pessoas. Em relação ao primeiro aspecto, o que peço aos ouvintes do meu podcast e leitores dos meus textos é que me ajudem a divulgar o meu trabalho e, se tiverem interesse e possibilidade, comprem os meus livros na Amazon. Mas o retorno é muito baixo. E não posso, claro, culpar as pessoas por divulgarem pouco o que faço ou por não comprarem meus livros. Alguns devem querer ajudar e não podem e outros simplesmente não têm interesse. No final, não tenho direito de exigir nada de ninguém se eu mesmo decido disponibilizar meu trabalho de forma gratuita.

Mas nem por isso eu fico sem nada. Como disse antes, existe outro aspecto do podcast pra mim, e nesse eu me sinto extremamente recompensado, pois sinto que consegui muito mais do que imaginava. Além do reconhecimento dos ouvintes (algumas vezes me vi emocionado com relatos de ouvintes do Ficções que compartilharam suas histórias comigo por email) existe o contato com outros produtores de podcast, o que tem rendido muitas experiências boas para mim.

Em 2017, por exemplo, além de gravar episódios do Ficções com Emerson Teixeira do Cronologia do Acaso, com Airechu do Multiverso X e Pedro Almeida do Formato PDF, eu participei de episódios dos podcasts Apenã e HQ Sem Roteiro. Essa troca é fantástica e eu tenho aprendido muito com todas essas pessoas. Mas volto ao ponto: até quando conseguirei ficar assim, produzindo algo que me consome só porque eu gosto?

O Ficções é um podcast com episódios curtos e com edição simples. Isso pode passar a errada impressão de que é fácil gravar cada um desses episódios, como se não fosse necessário preparação, disposição, experiência e conhecimento acumulado para ter algo relevante para dizer. Em 2017, quem acompanha o feed do Ficções recebeu 128 episódios. É muita coisa. Quero continuar produzindo, vou continuar produzindo, mas sempre que me vejo organizando o próximo episódio é inevitável a pergunta: até quando?


Originally published at www.marcosramon.net on January 1, 2018.

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