Loucos por informação

Vale a pena sacrificar a experiência para consumir mais?

Escute esse texto em formato podcast

Por muito tempo as pessoas desejaram mais acesso a cultura, mais interatividade e uma maior facilidade para produzir e difundir informação. Bem, vivemos em uma época em que tudo isso é possível e, no geral, não temos muito do que reclamar. Mas pra quase tudo existe um porém, e o da era da informação é a precariedade da experiência. Para ter mais informação, sacrificamos o caminho. Vale a pena?

Recentemente o Gustavo, do podcast Podcrastinadores, fez uma enquete no Twitter sobre a velocidade que as pessoas escutam podcasts:

Só pra contextualizar: alguns aplicativos permitem acelerar a velocidade dos podcasts. Assim, você pode ouvir mais programas em menos tempo. Ou seja, mais informação, menor foco na experiência.

O resultado da pesquisa do Gustavo, com 132 votos, é significativo (a favor da velocidade original dos programas), mas a ideia de se ouvir os podcasts assim está longe de ser unanimidade. Já vi muita gente defendendo o ato de se ouvir os programas de forma acelerada. Além disso, a implementação desse tipo de recurso nos aplicativos de agregadores mostra que existe uma demanda dos usuários pra isso. Um exemplo de alguém que defende essa prática de acelerar os podcasts é o Paulo Higa do Tecnocast. Escute o que ele disse sobre isso:

Agora, só pra demonstrar o que acontece com a aceleração, escute o mesmo depoimento em 2x:

Consegue ver o problema? O ritmo da voz humana, da entonação e das pausas se perdem na aceleração. Alguns apps, como o Pocket Casts, que é o que eu uso, ainda permitem a absurda retirada dos silêncios e pausas.

Sobre esse tipo de prática, muita gente utiliza o argumento de que não se deve limitar a experiência do usuário. Logo, o mais importante é oferecer opções a todos. E a partir do momento em que as escolhas existem, aparentemente não há isso de certo ou errado. Como ninguém é obrigado a adotar essa ou aquela atitude, o ganho é para todos. Mas será que é assim mesmo?

Sou contra esse argumento pelo seguinte motivo: ter escolha é também poder escolher algo ruim. E até aí não existe problema algum. Afinal, não quero quero viver em um mundo sem liberdade de escolha. De qualquer forma, acho importante pontuar que o direito de escolher implica em assumir o risco de errar, com todas as consequências que os erros envolvem. Nesse caso, apesar de entender e valorizar a escolha individual, defendo que ninguém deveria sacrificar a experiência só para consumir mais informação. Afinal, acessar muito conteúdo não equivale a assimilar todo esse conteúdo, como pretendo mostrar a seguir.

Sobre o podcast especificamente, qual é o problema?

Quando as pessoas optam por ouvir podcasts em velocidade acelerada, em 1.5x, 2x ou até mesmo impensáveis 3x!, o que está em jogo é o tempo para consumir mais coisas. Estamos obcecados com a ideia de possuir um número gigantesco de informações; mas, com muitos dados recebidos, fica mais difícil o processo de transposição da informação para o conhecimento.

Em podcasts com estrutura narrativa mais enfática, como o Escriba Café, o dano que esse tipo de prática causa é óbvio, como você pode o observar no exemplo que vou mostrar a seguir. Primeiro, escute esse pequeno trecho em velocidade normal:

Agora com 1.5x:

E com 2x:

Você percebeu certamente que a música, que estava contribuindo para a ambientação do episódio, perdeu a função de nos inserir no clima pretendido pelo podcast. Mas não é só esse tipo de podcast que sofre com essa prática. Podcasts que seguem o modelo de conversa/debate com diversos integrantes acabam sendo também prejudicados com esse tipo de interferência. O humor, por exemplo, precisa de um timing, uma dinâmica, e alterar a estrutura do que foi falado e preservado pelo editor do podcast, elimina boa parte da experiência. Você pode ver isso nesse exemplo do Podcrastinadores (em 2x):

A conversa ainda está lá, mas com a aceleração perdemos a naturalidade da fala, e o humor se torna quase inalcançável.

Num primeiro momento, podemos ver a prática da aceleração dos episódios apenas como uma desvalorização do trabalho dos podcasters (hosts, editores etc.); mas, para além disso, vejo também um descaso com a própria capacidade que temos de nos envolver com o conteúdo que queremos consumir.

É muito mais fácil assimilar uma ideia quando nos conectamos emocionalmente com aquilo que é dito. É por esse motivo que os melhores professores não são aqueles que bombardeiam os estudantes com milhares de informações, mas sim aqueles que conseguem despertar o encantamento e a sensibilidade por meio do que é dito. O podcast, pensando nesse aspecto, guarda uma relação de intimidade também muito intensa. Você escuta a voz de alguém pelo fone de ouvido, alguém que fala com todos os ouvintes, mas, que naquele momento específico, se dirige unicamente a você. Uma mensagem assim alcança a sua atenção, e a conexão emocional é imediata. A dicção única de cada pessoa, bem como sua respiração e articulação, permite que a experiência de ouvir um podcast seja uma troca real de empatia. Mas tudo isso se perde quando fazemos isso:

Agora escute esse mesmo trecho do podcast Mamilos na velocidade normal, e perceba como é muito mais fácil se conectar com o que está sendo dito quando cada silêncio e pausa está no lugar:

Consumir menos, aproveitar mais

Schopenhauer, que foi um brilhante escritor, certamente queria ser lido pelos seus contemporâneos. Mesmo assim ele escreveu que, no que se refere à leitura, o mais importante é ler menos e reler mais. Schopenhauer alegava que a vida é curta e que o nosso tempo precisa ser melhor empregado. Portanto, é melhor selecionar bem as leituras e abandonar os textos desinteressantes, em vez de ler muito em busca de um acúmulo de informações que no final não serão bem absorvidas.

Com o podcast é a mesma coisa. Algumas pessoas vão alegar que aceleram os episódios e retiram as pausas para conseguir ouvir mais podcasts. Mas a solução para isso é simples: se você realmente não tem tempo, assine um número menor de feeds e selecione melhor os episódios que vai ouvir. Assinar 60 feeds de podcast pode até ser possível, mas é pouco proveitoso. Não vale a pena sacrificar a experiência por um número maior de informação. Nosso tempo é curto, sim, então vamos aproveitá-lo com mais qualidade, tornando cada experiência relevante e estimulante. Imagine a dedicação de cada podcaster que entrega parte do seu tempo para gravar, editar e compartilhar aquilo que sabe e viveu com você. Será que é mesmo interessante desprezar isso por um número maior de informações recebidas?

Somos loucos por informação, mas não podemos deixar que a informação em excesso nos desconecte daquilo que é importante e essencial na existência humana: a conexão com os outros.

Ilustração de Diego Schtutman
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